quinta-feira, 18 de julho de 2013

CONJUNTURA & MOVIMENTOS SOCIAIS



No século XXI, no Brasil, ainda não havia ocorrido movimento social significativo, apenas os paredistas de algumas categorias, em busca de melhores salários.  O último e o menor deles, aconteceu em 1992, foi o dos Caras Pintadas, anti Collor.  Houve outros movimentos marcantes como  o  Passeata dos Cem mil,  no Rio de Janeiro(1968) e o  das Diretas Já (1984) ambos contra   a ditadura . Importantes também foram os ocorridos na Europa em 1848, em 1870 e em 1968. A máxima vitória deles parece ter sido a de reforçar algumas posições. Nenhum deles parece ter atingido seus objetivos.
Uma das causas do refluxo  dos movimentos foi a tomada do poder pelo PT, por meio do voto . Eram seus militantes os principais articuladores. Chegou-se até a falar  numa ditadura sindical, durante o governo Lula. Estando os sindicatos atrelados ao poder a ele não se opunham, a não ser em greves reivindicatórias, contra os patrões. Pouco a pouco o Partido dos Trabalhadores se afastou das ideias antes defendidas, logo, parte da esquerda abandonou suas fileiras, formando dissidências. Na verdade, dentro do sistema em que se formam, os partidos políticos lutam apenas pela tomada do poder. Após o tomarem, em geral, dele se valem apenas para seus interesses. O PT procurou contemplar um programa assistencialista mínimo (não revolucionário), como a instituição de bolsas como a escola, a família e auxílios para a moradia. Mas não era suficiente, o que desagradou a esquerda. Os grupos reacionários (e como existem) sentiram-se pessoalmente lesados, pelos programas sociais do governo, acusando-o de comunista. Some-se a isso a campanha virulenta (da mídia e redes sociais) contra a insólita prática dos governos brasileiros, na compra de alianças, para aprovação de leis e atos provenientes do executivo (como o mensalão).
Dessas práticas apenas o PT foi acusado, até hoje.Com uma exceção : a dos anões do orçamento em 1993.  Por outro lado o custo de vida que se manteve estável durante o governo Lula (2003-2011), por causa da crise mundial, não pode ser contido pelo atual governo .Tal aumento gerou protestos contra a alta da educação ( nas escolas privadas) do transporte e da alimentação. São dados que merecem reflexão. Por fim, a o período favorável em que ocorreu a grande manifestação popular de junho/julho foi  o da realização da Copa das Confederações, para a qual grande parte da imprensa internacional voltava suas lentes. É nessa a conjuntura que nasceu o atual movimento, cujos agentes são dispares e as mudanças pretendidas inatingíveis. Segundo Derrida  dadas suas características os movimentos espontaneistas não tem a força necessária para alcançar mudanças sociais almejadas .Basta esperar para ver.
,Loraine Slomp Giron  Historiadora



quinta-feira, 11 de julho de 2013

AGENTES & MOVIMENTOS SOCIAIS

AGENTES & MOVIMENTOS SOCIAIS
 Hegel afirma que a coruja de Minerva só alça voo ao anoitecer. Da mesma forma, a explicação sobre o movimento social que abalou o Brasil nos meses de junho/julho de 2013 não pode ser completa, visto que ainda não acabou .Só quando os eventos acabam é possível saber seus resultados.  Só muito mais tarde poderão ser explicados  em profundidade.  Muitos foram os movimentos sociais que assolaram o mundo. Também o Brasil teve estranhos movimentos como a Marcha pela Família e Propriedade ( 1964)o das Diretas Já(1984) entre outros.  Falo de movimentos e não de revoluções. Mas o que são movimentos sociais? Cada autor tem sua resposta.  Marx acredita que são reflexos das lutas de classe, Bóbbio que são tentativas de conseguir determinados resultados, com valores e objetivos comuns.  Touraine acredita que mais do que valores e crenças comuns, os movimentos devem ser compreendidos dentro das estruturas sociais nas quais ocorrem. Os autores citados, dado o tempo em que escreveram (anterior à Internet) não oferecem uma explicação total sobre os movimentos atuais do Brasil. Mas dão pistas para entendê-los.  Marx crê que em geral são originários  de minorias para o beneficio de minorias. Alerta para o fato de que muitos dos movimentos sociais do passado (?) foram promovidos pelo capital para defender seus próprios interesses.  
Para analisar o movimento atual, em primeiro lugar, deve-se buscar seus agentes ( não as causas)  e, após  a  conjuntura no qual  se insere .Os agentes iniciais foram organizações  pouco expressivas como o Movimento Passe Livre (MPL)entre outros, que defende a adoção da tarifa zero para transporte público e  coletivo.O movimento criado em Porto Alegre, em 2005, formado  por GTNs (Grupos de Trabalho Nacional),se articula por meio das  redes sociais da  Internet. Alega ser apartidário e independente. Planeja ações conjuntas e o Encontro Nacional do Movimento Passe Livre (ENMPL). É um movimento urbano, radical e horizontal, que exclui os partidos políticos, tendo reindicações materiais. Ou seja, falta-lhe o apelo ideológico. Reúne militantes dos poucos grupos e partidos políticos alijados do poder nacional. O que é mais importante: o Lumpem Proletariado( grupos de marginais) .São portanto grupos tanto  de direita como  de extrema esquerda unidos aos inevitáveis desordeiros .O governo querendo proteger os manifestantes não  tem coibido a violência, o que serviu para seu aumento. Em geral, a sociedade brasileira teme as manifestações e delas não tem se aproximado.Ao que tudo indica os  agentes e  os grupos não tendem  a aumentar. Resta lembrar o que diz Engels:Um grama de ação vale mais do que uma tonelada de teoria. Será verdade? Vistos os agentes, resta conhecer a conjuntura.
Loraine Slomp Giron  Historiadora




quinta-feira, 4 de julho de 2013

PRISIONEIROS DE VAN GOGH

            




Quem já viveu num internato sabe o que é a  perda da liberdade. No século passado as escolas eram raras. Em 1950, em Caxias havia poucas escolas médias ( parece mentira). Havia o curso comercial para o meninos, no Carmo e o curso Normal ( para professoras primárias) no São José e na Escola Normal Duque de Caxias .Em outros municípios nem essas  existiam. Havia mais escolas para meninos do que para as meninas, pois a formação parecia descabida para as moças. As que estudavam eram mal vistas. No mundo permissivo de hoje não é possível imaginar como era duro ter nascido mulher!
As alunas (cujos pais tivessem meios) eram mandadas para o internato, lugar muito semelhante aos presídios. Para quem não viveu tal experiência vale uma síntese de seus  horrores. Neles imperavam as normas rígidas, horários definidos, largos períodos de estudo e curtos recreios. Num dia normal havia no máximo uma hora de recreio, uma no meio da manhã e outro no meio da tarde, que correspondia ao horário do café. O resto do tempo se resumia a atividades controladas regidas por regras e a normas. De manhã cedo ( as 5,30 horas) levantava-se, as seis horas era   a hora da missa diária ,que durava uma hora e era rezada  em latim.A lembrança do gelo das manhãs de inverno até hoje fazem minhas pernas tremerem,pois, usar calças compridas era proibido .  As aulas iam das sete às 12,30 horas. O’ estudo’ era o espaço para estudar e fazer os deveres escolares. Quarenta meninas fechadas numa mesma sala de aula. De tarde banho e café e mais estudo. Às sete horas era servida a janta e às oito horas era a hora de dormir. O dormitório era comum a cerca de trezentas internas (havia dois). Cada aluna tinha sua cela, meia parede de madeira em três lados e uma cortina na frente. No verão,quando se ia dormir, o sol ainda estava alto. Era muito quente (como só Porto Alegre sabe ser) e no dormitório não havia nem sequer um  ventilador.Sem esquecer das orações.O pior de tudo era o controle, não havia privacidade, até no toalete havia sempre um urubu (assim chamávamos as freiras) de plantão. Pior que os urubus eram as sinetas que avisavam as mudanças de atividades. Lembro-me da minha felicidade quando roubei o badalo da sineta principal. Ficamos um dia ouvindo gritos das freiras ,mas não o   irritante badalar .Mais  mais sério  que o badalar era a hipocrisia.
Nos fins de semana, saia-se com a ‘bicha’, passeava-se pelo centro ou pelo parque da Redenção. Esse era o nome dado ao grupo de alunas que de uniforme, em pares de duas circulavam como os prisioneiros de Van Gogh. Foi o supremo vexame de minha adolescência. Quando um espetáculo ou uma palestra não tinha audiência, lá íamos nós as maiores carregadas pelas irmãs (como tapa buraco). Assim, pude assistir incríveis espetáculos e tediosas palestras. Foi no internato que aprendi a hipocrisia e a importância da luta constante pela liberdade!
Loraine Slomp Giron - Historiadora





quarta-feira, 3 de julho de 2013

POMBINHA



            Sempre fui contida no afeto aos animais. Os cachorros também, tem um só dono  e a ele são fiéis até a morte. Meu tio Aléssio tinha um cachorro policial chamado Tupi. Como o Hachi do filme Sempre a seu lado, (baseado em fato real) Tupi  o seguia seu  aonde quer que ele fosse. Quando meu tio morreu, Tupi fugiu de casa. Não foi mais encontrado. Uma semana depois, foi achado morto sobre o túmulo de seu dono. O fato emocionou meia Farroupilha.
Foram poucos, meus animais de estimação. Tive muitos outros, mas que adotaram meus filhos como donos. Meu primo Renoi e eu mais  que primos, éramos amigos e irmãos, passamos parte de nossa infância juntos na Forqueta.De manhã cedo  éramos  encarregados por minha mãe de ver quais galinhas tinham posto ovos, para recolhe-los . Foi assim encontrei Pombinha, no galinheiro. Era bem novinha e branca.Tão pequenina  que  parecia mesmo uma pombinha. Até dava umas voadinhas, de um poleiro para outro, aqueles voos rasteiros das galinhas. Enquanto meu primo fazia a coleta dos ovos, eu brincava com minha galinha. As galinhas como pássaros  em geral não se afeiçoam. Pombinha nunca gostou de mim. Sei de aves que amam seus donos. Na Forqueta, dona (Marga) Rita, tinha um papagaio que gritava o nome dela, cada vez que ela se afastava. Vivia  com a perna presa numa cordinha.Como gritava!
             Aos poucos, Pombinha cresceu, seu destino selado seria a panela.  Eu ficava pensando no jeito de salvar a pobre condenada. Um dia resolvi, soltei Pombinha no quintal do vizinho, por sinal meu tio. Pensei ela podia ganhar o mato e se salvar. Na manhã seguinte bem cedo fui ver por onde ela andava. Boba como só ela voltara ao galinheiro, no qual tentava entrar. Fiz-me de louca e deixei-a fora do cercado.  Não deu outra, na manhã seguinte encontrei alguns de seus restos manchados de sangue. A raposa, famosa comedora dos  ovos do galinheiro  havia mudado sua dieta.
            Fiquei triste e meio (não muito) responsável por sua morte! Então fiz seu enterro com grande pompa. Coloquei seus restos numa caixa de sapatos, envolta em papel de seda, disse algumas rezas em latim (que sabia de cor, mas não entendia). E a enterramos. Para evitar que alguém capinasse seu santo sepulcro, em torno dele enfiei alguns galhos de macieira recém-podada. Muito tempo depois às macieiras cresceram e deram flores e frutos. Um belo túmulo para uma galinha. Dai veio meu gosto pelas plantas, que não morrem tão facilmente como os animais.
Se eu fosse Esopo, poderia inventar  um lapidar adágio, que serviria de exemplo aos gregos e aos troianos. Seus provérbios sobre galináceos são pífios, ele não apreciava as galinhas. Preferia os galos. Imito  um que ele destinou aos ratos: “ Mais vale galinha magra no mato  do que  gorda na boca da raposa . Moral da história , salvei a galinha de uma morte certa e a condenei a morte incerta.
Loraine Slomp Giron - historiadora


terça-feira, 18 de junho de 2013

 A TRAMA DA MEMÓRIA



O genial Quintana afirma que “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. Ele não ocupa lugar porque  já não mais existe, ele jaz nos escombros do tempo, nos descaminhos da memória. O que já foi existe apenas na memória e nas fotos e nos fatos. Nada como os jornais para guardar o passado em seus pequenos meandros.  
 Só a memória trama e vincula o passado e futuro entrelaçando-os com presente. Cada homem tem seu depósito de memória, e escolhe o que guardar. Alguns tudo esquecem outros só guardam mágoas e rancores. Outros pensam em seus pecados e esperam o castigo. Há ainda os que só recordam o que foi bom. Mais sério é o caso dos que tudo lembram, esses são fadados ao desespero. Há muitos anos  havia um parente meu que se lembrava de tudo, vivia das sobras do tempo. Como os antigos pajés, era consultado para tudo e para nada. Tinha uma resposta pronta sobre qualquer assunto. Era como se guardasse na cabeça a chave geral do tempo. Nunca desligava. O peso do tempo acabou com sua sanidade, um belo dia, se enforcou. Assim  há memória e memórias, de vida e de morte.  Se o   tempo é a matéria prima da memória  ela é seu repositório.
            As cidades são temporais como os homens. Crescem e se transformam, matando pouco a pouco partes seu passado, e inventando partes de seu futuro. As cidades também morrem, como a Atlântida perdida para sempre, e Herculano abafada pelas cinzas do Vesúvio. Muitas cidades se escondem sob a superfície das cidades.
Assim cada construção de Caxias, esconde  Caxias passadas , repousando   nos  entulhos. Moradores que viraram cinzas, e ficaram para sempre congelados no seu tempo. Redesenhar a cidade dos escombros só é possível com as lembranças.. Apascento as imagens mortas da cidade, como um rebanho de sombras. Cada homem que viveu nas casas destruídas (e são tantas) é sombra que vaga, num mundo inexistente.  
Lembro-me de uma ensolarada Caxias, das mulas, das carrocinhas puxadas à cavalo,que traziam o pão ,o leite e as verduras na porta de casa. Lembro-me das casas baixas, em cujos telhados passeavam e viviam gatos; dos quintais, onde se criava galinhas e se tirava água do poço em pleno centro. Lembro-me das ruas sem calçamento, onde a lama era uma lembrança da natureza; das poucas árvores nas calçadas; dos pedriscos na Praça e dos seus canteiros cercados com pequenas grades de ferro. Lembro-me das roseiras em flor na primavera, ainda mais belas  na lembrança;  da neve  sob a qual despontavam amores perfeitos e  junquilhos Como Proust degusto as mil folhas  do Café Atlântico,cujo sabor é melhor do que jamais foi.Onde foram parar os junquilhos nevados?
Hoje vejo uma Caxias enevoada pela fumaça dos carros, como se vista com olhos com cataratas. Mergulhada na poluição. Do asfalto negro e das sombras dos prédios, que impedem a luz do sol, do limo e da umidade. A cidade dos carros, da qual os pedestres são excluídos. Vejo a Praça pintada pelos excrementos das pombas, como  depósito de guano, no qual se refestelam gordos  ratos;cuja beleza perdida esconde-se na sombras; onde o drogados  insistem pisotear  o gramado, enquanto surfam em outros espaços. Vejo os prédios feios, se acumulando em cada rua e quadra, sem qualquer controle.  Muitos dos quais já vêm com o habite-se para os urubus. Onde estão os gatos que passeavam nos telhados?

Da trama do passado e do presente é possível traçar o futuro, como uma gota de sangue revela a espiral genética. Caxias segue o modelo de São Paulo, onde tudo é destruído para ser reconstruído com lucro. Caxias continuará crescendo, construindo monumentos ao mau gosto, sobre os escombros do passado,  num futuro cada vez mais distante da ensolarada  Caxias antiga. Seria de desejar administradores amassem a cidade e a protegessem, em lugar de atira-la à sanha das construtoras, destruidoras do passado. Assim jaz a cidade antiga de Caxias, que já não existe,  que é imagem fugidia do passado que o presente já não reconhece.  

quinta-feira, 13 de junho de 2013

TALENTO PARA AS PALAVRAS


 As universidades não foram criadas para formar profissionais, mas para proporcionar um espaço para a reflexão e conhecimento, mais no sentido teórico do que prático. Poucos iam para as universidades para ser tipógrafo, telegrafista, médico.  Essas profissões eram apreendidas com outros profissionais do ofício. Houve um tempo em que, por exemplo, os dentistas apreendiam seu ofício com os dentistas, e as parteiras com as parteiras Uma coisa era a formação e bem outra da profissão. No mundo atual os profissionais são formados nas universidades, enquanto o saber fica em lugar incerto e não sabido. 
No Brasil, o príncipe regente Dom João criou as escolas técnicas de medicina e de direito, mas não universidades. Apenas no século XX (1912) foram formadas as primeiras universidades brasileiras. Os portugueses não queriam sábios, mas artífices. O conhecimento é coisa perigosa, desde os tempos de Eva. Para ser mais precisa,  o mais perigoso de todos.  Durante séculos os brasileiros viveram à revelia do conhecimento, em compensação era o pais dos bacharéis, práticos em leis  .
De certa forma em algumas áreas do saber voltou-se ao passado, assim qualquer um pode ser historiador, geógrafo, antropólogo ou jornalista. Sem passar pelo aprendizado com outros profissionais. Alguns já nascem sabendo, com o profundo orgulho, que só a ignorância confere.  O mesmo não acontece com os médicos e com os advogados, regidos por leis e associações mais fortes do os cursos superiores, na atribuição de seus direitos.
Morreu Jimmy Rodrigues, que até nome de jornalista recebeu no berço. Mestre das palavras e doutor em comunicação, que nunca frequentou   curso de jornalismo. O primeiro elogio que ouvi sobre Jimmy, foi de Dona Adelaide Rosa, diretora ou vice da escola Duque de Caxias.  Ela falou que ele tinha futuro com a língua. Então eu era pequena, mas, passados setenta anos, ainda me lembro da expressão que usou ”Jimmy tem talento para as palavras.” Creio que o elogio vale para sua vida como comunicador. Só muito mais tarde comecei a ler suas saborosas crônicas. Trabalhando na Secretária do Cristovão de Mendonza (recolhida da sala de aula pela Revolução Gloriosa), em 1970, buscando uma ficha para um atestado, encontrei a de Jimmy Rodrigues. Logo me lembrei do elogio de Dona Adelaide e comprovei que tirara notas máximas em português. Jimmy vivendo em Caxias, onde durante anos os jornalistas trabalharam de graça (ou quase) teve de apelar para vários empregos, para sobreviver. Não podendo  se dedicar  apenas a seu talento maior o das palavras.   O amor pela língua e o talento não se aprende, esses ,nasceram  com ele.  
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quarta-feira, 12 de junho de 2013

 GREVE DOS PATRÕES

 

Há um livro magnífico Pesos e Medidas de Ítalo João Balen (clássico da literatura caxiense) que narra em versos (em dialeto e português) a revolta dos comerciantes locais contra as determinações legais de aferir os pesos e medidas de seus estabelecimentos. No inicio do século XX eram usadas balanças que tinham dois braços ,num dos deles  eram colocados pesos e no outro o produto a ser pesado Havia ainda medidas, ou seja,  metros para medir tecidos  e recipientes para medir líquidos. Segundo Balen,a maioria deles  era fraudada,o quilo poderia pesar 700 gramas , o metro oitenta centímetros e  uma  tara de quatro litros poderia conter três.Mas de qualquer forma era típico de então(só de então ?) tentar enganar os fregueses   e  o fisco.
 Quando eu digo que Caxias é engraçada, tenho razão, o Iotti que o diga. Não sei se já aconteceram greves de empresários em outros lugares, mas em Caxias sim. Só poderia ocorrer em Caxias, fato raro nos anais dos movimentos paredistas  nacionais.
Getúlio Vargas como ninguém atendeu as necessidades dos trabalhadores, com leis e medidas que contemplassem suas lutas, como o salário mínimo, aposentadorias e pensões,o  que onerou demais os patrões.Mas ,ainda assim, buscava contemplar as exigências dos patrões, o que não era fácil. Para manter o equilíbrio na difícil tarefa  teve que conter gastos  e implementar  a  cobrança fiscal. Fiscais do imposto de consumo e do imposto de renda passaram a atuar  com mais rigor junto às empresas industriais e comerciais do Brasil.
            A chegada dos fiscais ao município de Caxias acarretou pânico entre os patrões locais, nem sempre cônscios de suas obrigações. O desespero se instalou, pois nada é mais sério do que ser lesado no bolso.  Um empresário se suicidou e os outros não sabiam como proceder para afastar o perigo. Optaram por uma assembleia geral da Associação dos Comercantes, convocada para o dia três de agosto de 1936. Nela, ficou decidido que o comércio e a indústria fechariam seus estabelecimentos, até que as autoridades dessem solução ao problema da cobrança do fisco. Além da greve a Assembleia decidiu enviar telegramas para as autoridades federais e estaduais e aos órgãos de classe.
A greve continuou até o dia 5 de agosto. Na noite desse dia realizou-se nova assembleia na qual compareceram cerca de mil associados, bem como o Delegado Fiscal e o chefe do Imposto de Renda. Nela ficou decidido manter a greve até o dia seguinte, às doze horas. Na manhã seguinte foi realizada uma reunião na Prefeitura Municipal, que resultou em nada, pois, não atendeu as soluções pretendidas.     
O governo optou apenas pela  substituição dos fiscais. Por outro lado, o Delegado afirmou que eles tinham agido de forma correta e  que seus atos estavam baseados nos dispositivos legais Sua a missão era executar as leis fiscais, autuando os infratores, para julgamento das infrações verificadas. Decidido isso, não havia o que fazer, os estabelecimentos foram reabertos.
A greve revelou o poder de organização do grupo, demonstrando por outro lado que os empresários estavam afastados das decisões econômicas nacionais. Apesar de terem dado quantias consideráveis à revolução de 1930! Se os contraventores de hoje fizessem greve, nada funcionaria no país. Bons tempos aqueles, onde os contraventores faziam greve!